terça-feira, 25 de março de 2014

Já vi esse filme: Ocupação Complexo da Maré

Por Paulo Macedo Junior

O Rio de Janeiro está, mais uma vez, recebendo tropas federais para, em princípio, ajudar o processo de pacificação do Complexo da Maré. É a sexta vez, desde o início do primeiro mandato do governador Sérgio Cabral que a atuação das forças federais são solicitadas. Na última vez, como todo carioca deve lembrar bem, as tropas foram utilizadas durante a ocupação do Complexo do Alemão. Aliás, não somente o carioca, mas todo o país ficou impressionado com as imagens de blindados subindo o morro e bandidos fugindo pela mata. Essas imagens são datadas de 2010. Mas hoje, quase quatro ano depois, o que a pacificação trouxe ao Complexo do Alemão?

O Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) publicou um artigo em sua página com uma estatística, no minimo, curiosa: o Complexo do Alemão possui mais bases da UPP que escolas. Vamos refletir sobre como este dado atinge o cidadão. Talvez, para o cidadão de classe-média - que vê de longe - traga uma (verdadeira?) sensação de segurança. Porque a presença do polícia afugenta os criminosos e torna a área mais aprazível e tranquila (o que também não é verdade, mas isso fica pra outra oportunidade).
Todavia, e para o cidadão que vive no Complexo? O que essa militarização significa? Existe a necessidade de manter este efetivo na comunidade? Ou melhor, a manutenção deste efetivo trará algum benefício permanente? Talvez isto tenha sido uma solução para manter uma boa imagem da cidade durante alguns dias de Jogos Pan-Americanos, durante alguns dias de Rio+20, durante a visita do Papa, ou durante as gravações de uma novela. Mas, certamente, não é solução para o morador da comunidade. 

Construir um teleférico não é um benefício para quem nem possui saneamento básico. As obras do tão falado PAC estão paradas, e a maior parte da população do Complexo do Alemão continua sem receber uma melhoria sequer. Somente vê fardas e armas. Porém, não me recordo de já ter visto algo sendo construído com pé na porta e arma na mão. 

O que o Complexo do Alemão precisa são serviços que atendam a necessidade do cidadão que lá vive. O Complexo do Alemão precisa de acesso à cultura, saúde e educação. Precisa ver além da força bruta do Estado. E mais do que tudo, a comunidade precisa ter sua voz ouvida. E quase quatro anos após a ocupação, nada disso foi realizado. As forças de segurança tratam a comunidade como uma criança que não tem poder de decisão e/ou escolha. Mesmo recentemente, quando o Complexo volta a ter problemas, o discurso dos governantes é sempre sobre aumentar o efetivo militar, e nunca em ir ao cerne da questão, nunca trabalhar no sentido de amenizar as desigualdades sociais que estimulam a violência.

Quase quatro anos depois da pacificação, muito pouco foi feito para os moradores do Complexo do Alemão. Nada que justificasse todo o aparato utilizado. Hoje, exatamente o mesmo processo está se repetindo no Complexo da Maré. E amanhã irá para outro Complexo, outra favela sem voz, sem direitos. Assim, o triste ciclo se mantém. Para benefício de quem?

Um comentário:

  1. Muita boa reflexão (Romário) Paulo. Infelizmente essa é a realidade das pessoas que vivem nesses locais e nada é feito!

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